A Infanticida Maria Farrar
Autoria de Bertold Brecht
Datada de 1937
Adaptação “manoelesca” por: Manoel Lima.
1937… Tão distante, não é mesmo?
É, mas só parece.
Ainda agora, eu vi Maria Farrar.
Agora há pouco. Quando vinha para cá,
Parei o carro no semáforo da avenida.
E lá estava Maria Farrar.
Travestida de Maria Aparecida, Maria das Dores e outras Marias.
Limpando parabrisas,
Vendendo balinhas,
Pedindo uma moeda, um troco qualquer.
Tentando, enquanto criança, manter viva a esperança de uma vida melhor.
1937… Tão distante, não é mesmo?
É, mas só parece.
Ainda hoje, eu vi Maria Farrar.
Foi de manhã. Na Praça da Sé.
Reconheci Maria Farrar,
Incorporada em um bando de meninas.
Enquanto umas se banhavam na fonte,
Outras lavavam os seus paninhos.
A maioria nem tem casa para voltar…
Melhor então, ficar na praça.
Alheias à nossa recriminação,
Pedem esmolas,
Cheiram cola de sapateiro
Para enganar a fome
Que dura o dia inteiro.
Tentando, enquanto crianças, manter viva a esperança de uma vida melhor.
1937… Tão distante, não é mesmo?
É, mas só parece.
Ainda ontem, eu vi Maria Farrar.
Foi à noite. Lá na boca do lixo.
Na zona do baixo meretrício.
Não pude deixar de notar a Maria Farrar,
Em cada uma das nossas meninas raparigas.
Enquanto umas exibiam seu corpo desnudo,
Outras rompiam de vez com a consciência,
Cachimbando na perdição do crack.
Tentando, enquanto meninas, manter vivo o desejo de amar e ser amada como qualquer criança.
1937… Tão distante, não é mesmo?
É, mas só parece.
Porque, aqui e agora,
Ainda vejo muitos se indignar.
Não deveriam.
São nossas crianças. Famintas,
Nascidas em um mês qualquer.
São menores de idade,
Raquíticas e com muitos sinais de violência.
Abandonadas e sem rumo certo.
São órfãs de amor responsável.
Então, peço a todos, por favor, não vos indigneis.
Todas elas precisam da ajuda de vocês.
manoellima-oviajor
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