Tributo aos Inimigos

“TRIBUTO AOS INIMIGOS”

Divagando, com a atenção completamente solta e sem me fixar em nenhum pensamento em especial, estava eu, tranquilo e absorto, a navegar na imensidão interminável da mente humana. De repente, a minha mente, como se tomada à força, estancou, e os meus pensamentos, como se fossem entidades independentes e não subordinados à minha vontade, fixaram-se em um tema único: inimigos. E, como cenas de um filme, uma interminável série de situações foi sendo mostrada. Situações que eu realmente já havia vivido com pessoas que sempre considerei inimigas. Só que agora era muito diferente, eu estava ali assistindo àquelas cenas da minha vida real como se fosse um espectador debruçado no peitoril da janela, enquanto lá fora tudo acontecia naquele exato instante. Uma energia estranha e relaxante, de súbito, tomou-me por inteiro, das solas dos pés aos fios de cabelos que ainda me acompanham, envolvendo todo o meu corpo numa luz penetrante e de tom dourado. E o mais fantástico, e até incompreensível, é que me encontrava num estado de profunda lucidez. E nessa intrigante lucidez, que jamais havia experimentado, continuei ali assistindo à reprise de situações que já havia vivido com meus inimigos, porém com uma diferença fundamental: desta vez revivi as cenas com os olhos do bem. Nesse momento, descobri algumas verdades fundamentais no relacionamento com os meus, até então chamados, inimigos. Vejam vocês qual não foi o meu espanto ao constatar que:
- Os meus inimigos nunca me pediram dinheiro emprestado. Portanto, entre eles, não há nenhum que me deva um real sequer.
- Os meus inimigos nunca me pediram qualquer tipo de fiança. Portanto, nunca me causaram o dissabor de ser judicialmente executado por uma aquisição que não desfrutei ou a vergonha de ter meu nome na lista negra do SPC.
- Toda vez que fiz negócios com inimigos, sempre fui muito cauteloso em tudo. Inclusive, muito cauteloso quanto à documentação. E, em todas essas vezes, o negócio teve um final satisfatório para ambas as partes.
- Os meus inimigos nunca me procuram, pessoalmente ou por telefone, para conversas banais ou para fazer fofocas. Muito pelo contrário, só me procuram quando o assunto está bem definido. Portanto, nunca desperdicei um minuto sequer do meu tempo com os meus inimigos.
- Sempre que, por algum motivo pertinente, almocei, jantei ou tomei um café com alguns dos meus inimigos, estes insistiram em pagar as despesas ou, no mínimo, que a conta fosse dividida em partes iguais. Portanto, nunca tive despesas sociais com meus inimigos.
- Com todos os meus inimigos, sempre consegui manter o relacionamento em nível impessoal, onde cada um respeita o poder, o espaço e o limite do outro. Portanto, nunca me permiti magoar por algo dito ou feito por algum dos meus inimigos.
- Nos piores e mais desagradáveis acontecimentos com meus inimigos, até mesmo no caso de passagem de algum deles, sempre analisei o fato com naturalidade, na certeza de que é o ciclo harmonioso da vida em ação. Portanto, meus inimigos nunca me fizeram derramar uma única lágrima sequer.
- Toda vez que disse não a um desses inimigos, este, ao contrário de pessoas queridas, não fez beicinho, bateu o pé, a porta ou tampouco disse: “Não esperava isso de você.” Portanto, com meus inimigos, nunca fiz nada contra a minha vontade.
Então falei comigo mesmo: veja você Manoel (eu me chamo de Manoel), os teus inimigos nunca te deram prejuízo; nunca sujaram o seu nome com processos; nunca te fizeram perder tempo; nunca te fizeram sofrer; nunca fizeram você derramar uma lágrima sequer; nunca pediram que você fizesse algo contra a vontade. E você ainda os chama de INIMIGOS?
Aí, emocionado, corri até a adega e peguei o meu melhor champanhe, aquele que a gente guarda para uma ocasião especial. Mentalmente visualizei, ali na sala, todos os meus inimigos que na hora pude me lembrar. Abri o champanhe e brindei alegremente com todos eles.
A partir daquele dia passei a encarar os meus inimigos não mais como seres perigosos e que precisam ser combatidos, com dureza e sem trégua, mas, como mestres que a vida, por amor a nós, colocou em nossos caminhos para que possamos superar alguma deficiência ou aprender uma importante lição.
Portanto, esse texto simples, mas muito sincero, deste companheiro de viagem, outra finalidade não tem se não a de prestar TRIBUTO a esses importantes mestres: os Inimigos.
“Cada um de nós tem o inimigo que merece e o mestre que precisa”

manoellima-oviajor

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